Casa do Trem - Santos

A Casa Trem em Santos
A Casa do Trem, em Santos (SP), foi o primeiro equipamento santista da visita técnica realizada pelos participantes do '7º Seminário de Cidades Fortificadas' e do '2º Encontro Técnico de Gestores de Fortificações', que aconteceu em Bertioga (SP), de terça (29/11) até quinta-feira (01/12). Reativado há dois anos após restauração, o espaço integra o patrimônio artístico e cultural da cidade de Santos e apresenta a mostra 'Armamentos Históricos', paralelamente à exposição permanente do antigo Sistema de Defesa do Porto de Santos por meio dos fortes da região.
Com o objetivo de traçar diretrizes para a otimização no uso dessas edificações seculares, o evento reuniu historiadores, museólogos, estudiosos e palestrantes do Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Santa Catarina), Uruguai, Portugal, Bélgica e Holanda. Eles também conheceram o Museu de Pesca, outrora Forte Augusto, que cruzava fogo com a Fortaleza da Barra e hoje se encontra em terras pertencentes à cidade de Guarujá, além de outros imóveis militares remanescentes na Baixada Santista.
Para Oscar Hefting, diretor da New Holland Foundation, da Holanda, foi uma agradável surpresa constatar a preservação dessas construções. Ele considera bastante pertinente a nova destinação dada à Casa do Trem, antigo depósito das armas e munições que abasteciam fortalezas e quartéis do litoral paulista. “ A conservação é muito importante, pois em cada época o equipamento tem uma função específica. Agora a finalidade é bastante cultural.”

Casa do Trem - Santo/SP: a mais antiga edificação pública de Santos. Foto: Tadeu Nascimento.
Da guerra à cultura
Carabina chuchu, única arma militar projetada por um brasileiro; clavina de repetição Spencer, usada na Guerra Civil americana; o primeiro cartucho metálico de sucesso, o Lefaucheux; pistolas da Guerra Napoleônica, que vieram com o exército de D.João VI; as primeiras armas de ferrolho; garrucha de ante-carga, a mais popular no Brasil no século XIX e revólveres militares, também do século XIX, são algumas das cerca de 100 peças da mostra 'Armamentos Históricos´. Expostas em vitrines no primeiro andar da Casa do Trem – a mais antiga edificação pública de Santos, erguida entre 1640 e 1656 - elas relembram diferentes momentos da história.
Somados a baionetas e diversos tipos de armamentos (todos desativados), do acervo constam, ainda, fardas, binóculos, condecorações e imagens. “É mais um passo no processo de revitalização do Centro Histórico, que se desenvolve de forma planejada e definitiva”, comenta o prefeito de Santos, João Paulo Papa.
A coordenação é do colecionador Aldo João Alberto, professor de engenharia (graduando em História Militar) e membro do IHGS. A exposição é realizada pela Prefeitura Municipal de Santos (PMS), por meio da Secretaria de Cultura (Secult) e do IHGS (Instituto Histórico e Geográfico de Santos),
Exposição permanente
No térreo, a mostra do antigo Sistema de Defesa do Porto de Santos prova que contos de piratas não são mera ficção. Foi especialmente para defender a costa brasileira de corsários franceses, holandeses e ingleses que surgiram as inúmeras fortalezas apresentadas nos painéis luminosos.
Com 9m², o painel do salão principal, denominado Linha do Tempo, traça um paralelo da construção dos fortes em relação ao contexto da arquitetura mundial. À maneira de “estórias” em quadrinhos, na parte superior vai desfiando episódios da História Geral desde 1490, quando Giuliano da Sangallo projeta a Vila Medicea de Poggio a Caiano, e por 1492, quando Colombo descobre a América, até chegar em 1822, com a Independência do Brasil. A parte inferior faz referência aos acontecimentos no Brasil. A tira tem início com o mapa da Terra Brasilis (1490), fundação de São Vicente (1532), construção do Engenho dos Erasmos, em Santos (1531), e começo da povoação de Santos (1536), passa por edificações jesuíticas para finalizar com a conclusão das obras da Casa do Trem (1738).
Outro painel indica no mapa os dez equipamentos responsáveis pela Defesa do Porto de Santos: Fortalezas de Itaipu e de Santo Amaro da Barra Grande, Fortes da Vila ou Monserrate, Vera Cruz de Itapema, São João de Bertioga ou de São Tiago, de São Felipe, de São Luiz de Bertioga, da Estacada, dos Andradas ou do Monduba e Fortim do Góes.
O Forte Vera Cruz de Itapema, o de São João da Bertioga, o de São Luiz de Bertioga e a Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande dispõem de painéis especiais, em que constam localização e histórico. Eles estão expostos nas demais salas do espaço cultural, assim como a maquete da cidade de Santos em 1850, feita em 2007 pelos alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de Santos.
Texto redigido pela organização Ama-Brasil ressalta que esse conglomerado defensivo pode ter diversas leituras. Evidente é o aspecto religioso, já que seis fortes receberam nomes de santos. Também salienta: “ a partir da organização política, onde o sistema das capitanias hereditárias é representado pelo Forte de São João; o domínio espanhol, pela Fortaleza de Santo Amaro da Barra Grande; e o iluminismo pombaliano, pela construção do Forte São Luiz”. Pela vertente dos ciclos econômicos, a visão teria tido início no bandeirismo, passando pelo ciclo do ouro, com a ampliação dos fortes Vera Cruz de Itapema e Santo Amaro, e alcançando o ciclo do café, que implantou instalações mais modernas ( Fortaleza de Itaipu e Forte dos Andradas). “ E, por fim, pelo viés da evolução da história militar e do sistema de defesa do porto de Santos”.
Sobriedade Arquitetônica
Típico exemplar da arquitetura militar portuguesa da fase colonial, o projeto de restauro da Casa do Trem foi assinado pelo arquiteto Victor Hugo Mori, do Ipham (Instituto Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).
A construção em pedra e cal registra, sobre a entrada principal, o ano de 1734, que tanto pode fazer referência a uma importante reforma quanto a uma ampliação do prédio original. A escadaria externa, formada por rochas, foi totalmente restaurada.
As paredes têm 1 metro de largura. Depois da prospecção cromática para determinar as cores originais, as portas de madeira almofadada – emolduradas por umbrais de pedra - foram pintadas de verde. O mesmo aconteceu com as janelas, que contam com grades de ferro e, no andar superior, dispõem de conversadeiras.
O piso de pedra do pavimento inferior foi substituído por cimento em uma das salas. Em outras duas ele foi conservado, após trabalho de prospecção que resgatou interessantes peças arqueológicas. As vigas de madeira do teto suportam as tábuas corridas do piso do andar superior, aonde se chega por meio de escada helicoidal. Esse pavimento é coberto por telhas apoiadas em madeiramento sustentado por tesouras.
A funcionalidade do equipamento foi garantida com a construção de um prédio anexo, que dispõe de cafeteria, escritório para o setor administrativo, sanitários masculino, feminino e para pessoas com deficiência, para quem também foi instalada rampa metálica externa, na área traseira. Área onde se preservou, a bem da história, um pedaço do muro original de pedra e algumas tranquitanas restantes de algumas demolições da cidade, em que se pode ver a inscrição das datas 01 – 12 – 1900 e 01 – 08 – 1905.
Responsável pela captação dos recursos para o restauro, a Ama-Brasil (Organização de Desenvolvimento Cultural e Preservação Ambiental) obteve o patrocínio do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e Finabank, o copatrocínio da Rede Drogasil e Tecondi/Termares, além do apoio do Ministério da Cultura.
A visitação é gratuita e pode ser feita de terça-feira a domingo, das 11h às 17h. Endereço: Rua Tiro 11
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Fonte do Texto e das Imagens
- Texto: Jornalista Amélia Fernandez Gonzales. Secretaria de Comunicação Social da Prefeitura de Santos.
- Fotos: Tadeu Nascimento.
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